O sol já se tinha posto e fragmentos de raios dispersos perdiam-se em espasmos roxamente dourados no infinito do horizonte.
As nuvens projectavam um mate cinzento meditileno na calma do constante quebrar das ondas espumosas. Um cheiro salgado a maresia pós-crepuscular apoderava-se do meu paladar amenizando com as rugas que as nuvens desenhavam na face do céu indeciso em flagrante entra o dia e a noite.
A dor ofegante da indecisão do meu ser perdeu-se por instantes na frescura apaziguadora de uma estranha brisa lunar...
Tudo fazia sentido, o meu ser abrangia tudo, prendi o meu olhar numa gaivota errante e deixei-me ir, segui-a de longe até já não a ver. Dissolvi a fragilidade da minha existência no torpor deste instante, voei, fugi, quase desapareci...
Acordei, dou comigo aqui nesta praia, sinto-me invadido pelo esplendor da superfície plana do oceano que silenciosamente se perde indefinidamente na infinitude do horizonte.
Sou todo sonhos, todo possuído, sucumbo perante a grandiosidade deste cenário..
Ò lacustre solidão, como sou irrelevante, como sou nada, ninguém perante ti...
Tivesse todo este existir um sentido, não fossem os sonhos em vão, perdidamente dispersos sem paradeiro na vala comum das fantasias descartadas.
Houvesse alguém, houvesse ela! O outro eu, que me completaria, aquele sonho meu!
Uma loucura definidamente concreta em que me possa perder.
Ó tu, deus sem nome, vida sem rosto, icognito, inexistente [porventura], que mal é que te fiz?
Diz..., diz!!!!!
Sou um orfão do destino, que nenhum deus quis...
E é hoje, agora, com a ternura morna deste vento crepuscular a acariciar-me a face e o esplendor desta noite a enxugar as lágrimas que a minha alma sangrou, que sei decididamente que estou só.
Mas triunfarei, ó abominável desconhecido, dono do destino que nunca nada me ofereceu, não serás tu que me vai privar de viver, desejar, acontecer...
E é em momentos de bonança como este que encontro a minha paz, me ergo das cinzas e invento a esperança para continuar a acreditar, procurar... ...beijo a infinitude dourada do mar, hei de voltar a amar...
Adamastor da minha alma- hei de te derrotar!
remar, remar, remar...
22.9.02
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
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